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TU E EU
Suspiravas sozinha durante a noite fria, sem ter ninguém a teu lado
tinhas nos braços uma criança, triste é o teu fado, ninguém a ver que sofrias...
Que futuro e felicidade pode ter uma criança, se é órfã de pai? Tristemente
sussurras e prometes-lhe, em vão, que o irás procurar até ao fim do mundo.
E apaixonada secretamente sofres por detrás da sombra... Entre
a escuridão e esquecimento tens nos braços uma pequena criança: o amor que sentes por mim...
No presente somos aquilo que fizemos no passado e aquilo que aprendemos para
o futuro... Se passado não tive e se meu futuro já está comprometido, que destino podia dar ao meu presente? Mesmo
eu sendo a metade que te falta deixa-me ir, não possuo o meu livre arbítrio e não tenho outra escolha...
Não tendo destino deixa-a morrer, não a deixes sofrer por quem não
merece. Fá-la renascer com outra alma que sendo gémea de mim surgirá com
o meu fim...
Sim... tu podes ser feliz.
6/01/2004
EXISTÊNCIA
Sigo a minha jornada entre montanhas;
viajo numa caminhada sem estrada e explicação... Pondo um sorriso atrás do meu destino pergunto-me onde estou...
Que rumo sigo para me encontrar com aquilo que sou? Mas se não existo como me poderei encontrar? (Eu)
não existo e sou ninguém, por isso quando se olha (para onde estou) não se vê nada porque o nada não existe. (Eu)
não existo e vivo no nada...
Minha jornada feita de montanhas é ilusão que criei para ter algo por lutar. (Lutar
por mim?)
Encontro-me a combater comigo mesmo nesse campo de batalha que é a minha consciência, tento
acreditar na minha própria existência...
25/01/2004
PRIMAVERA
Queria falar-te da Primavera e mostrar-te o outro lado: da esperança
e amor, da sorte e felicidade... Queria vivesses a tua Primavera, abrires os teus horizontes e abdicasses o teu passado... Porque
não ser outra entidade que ruma para uma nova era?
A Primavera
que aí vem semeia no caminho todo o seu esplendor. E faz sempre falta desabafar, chorar e rir da dor... E é sempre
bom que se goste de nós... ser o mundo de alguém...
Olha para
um horizonte de novo iluminado, rosas e pequenos cravos tentam crescer em campos outrora ressequidos e mudos... Após
um período de Inverno longo cansado, é hora de deixar cair as armas que usas para proteger: muro de pedras, parede de
escudos... Teu coração só e desconsolado, farto de bater fora de tempo pede à Primavera o seu momento...
Ferido, triste, abandonado, sem luz não consegue viver. Abre o coração na esperança de ser amado deixa-o
livre, deixa-o bater...
A Primavera que aí vem semeia no caminho todo o seu esplendor. E
faz sempre falta desabafar, chorar e rir da dor... E é sempre bom que se goste de nós... ser o mundo de alguém...
27/02/2004
PORTO SEGURO
Procuro o meu porto seguro para me fazer lutar a permanecer, nem
que seja por um amor inexistente, mesmo que no fim seja ilusão que desaparece num só gesto... E cansado de batalhas
solitárias, peço a um refúgio que me abrigue de um mundo que tem como demanda o amor mas ambiciona a prosperidade... Distante
ilha sem porto ainda anseia pelo momento em que sem temor possa fechar os olhos, adormecer e sonhar de verdade...
Meu porto seguro será
companhia da minha infeliz solidão que ouve as vozes da minha loucura a mostrarem-me a razão...
E a vida prossegue deixando suas marcas; o que me faz resistir,
morrer e voltar a nascer, é a vontade para ouvir: "Descansa, teu porto seguro está aqui..."
3/04/2004
SOLIDÃO
Não quero imaginar o amor que não tenho, insisto em me perder por
caminhos sem encontrar a (minha) alma. Olho para outros e vejo-os felizes, invejas daqueles ingénuos-apaixonados que
não sentem solidão...
Caminho apreensivo aquele que percorro sem saber com quem me dou. Necessito
ter um contacto que me mantenha em contacto, saber se o que é real me pode ir amparando na estrada que avanço pela
escuridão... Sei que preciso de sentir que não estou só...
E por tudo o que sei, sou desconfiado: se nada do que disse tem coesão, se
nada do que fiz tem suporte, quebra-se a ponte e a ilha surge a partir do nada que nunca tive...
Como viver só na minha
solidão?
18/05/2004
ASAS DE ARCO-ÍRIS
Sempre que vi a criança a chorar fiz-lhe asas de arco-íris e
mostrei que tudo era belo, puro e cheio de cor; nada se exaltava nem se destruía só por querer ousar e lutar para
vencer. Mas o mundo de fantasia termina quando ela sente que esteve sempre só...
Hoje, com o futuro já traçado, será capaz de voar mesmo que
esteja escrito o contrário, o sonho ninguém tira e isso é eternamente nosso... E cheia de esperança, com tanto para
dar, será assim que se irá despedir, com sorriso no dia do meu fim...
No desfecho já não há lugar para oportunidades e esperanças... Por
mais breve que tenha sido, será preferível ter vivido o sonho do que imaginá-lo para todo o sempre...
A Eternidade é o arrependimento de uma vida inteira...
25/06/2004
CAMINHO DE ALGODÃO
Sedento do meu ser desloco-me nos outros: sou o barqueiro, mendigo, sábio e o louco; sou a pedra no rio
e a chama no ar, de todos os elementos apenas o espírito não se deixa procurar.
Na consciência que Passado, Presente e Futuro não existem, permaneço sempre sob o mesmo céu, sou o meu próprio
meio e ele o meu lar.
É em mim que tudo nasce, tudo morre, tudo encontra o seu lugar.
(E) sedento vagueio sem sentido, encontro-me a procurar pelo meu caminho de algodão.
24/08/2004
ANJO MENOR
Anjo por Terra caído, insubmisso aos Deuses e expulso do Paraíso...
Sem Luz como Guia, o céu cinzento mora na passagem do devaneio ficando preso em correntes que insistem em
desgastar o Espírito.
Procura-se algo que não se realiza, procura-se algo que não se encontra, procura-se algo que não existe...
Vive-se em busca do Sonho feito de moedas de ouro e oculto no longínquo arco-íris... Por um instante ignora-se
a fraqueza das asas e superando expectativas voa-se rumo ao Horizonte... Flutuando na Liberdade de olhos semi-cerrados espera-se
que a ilusão dure alem tempo.
Quando se permanece longe de quimeras e desejos e se levanta todos os dias sem saber porquê questiona-se, onde
se encontra o Sonho? E a Idade da Inocência por onde ficou?
Sem resposta no realizar do encontro com o que não existe, anjo por Terra caído submete-se aos Deuses em
busca do Seu Paraíso...
29/09/2004
PARA SABER QUE EXISTO
Sofro por existir, condenado na própria mente revolto-me...silêncio... palavra muda sob o refúgio do
poeta, do seu mundo e da sua dor...
Sem esperança que o amanhã me dedique o seu dia, canto simplesmente por cantar, simplesmente para me ouvir, simplesmente
para saber que existo... Não, não quero ficar onde persisto...
Lanço-me à sorte pela calada da noite sem despedidas sentimentais debaixo do manto de estrelas, parto como
D. Quixote sem saber o porquê da razão...
31/10/2004
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